Algrave-se a Palavra

A tradição ainda é o que era!...

Quem disse que tradição já não é o que era enganou-se!...
Quem veio prová-lo, foi António Viera Nunes que esteve presente na Biblioteca da ESA, no dia 26 de Maio pelas 20h, promovendo o seu livro “Algarviadas” que segundo o autor, nasceu para perpetuar uma série de expressões algarvias.
À boa e tradicional maneira portuguesa, António Vieira Nunes proporcionou boa disposição a todos os presentes, lendo excertos do seu livro, destacando vocábulos típicos do Algarve (sem esquecer a devida pronúncia) que relatam parte da maneira de falar de algumas aldeias algarvias.
O autor das “Algarviadas” relembrou palavras que muitos já tinham esquecido e outras que recordadas originaram risos e sorrisos cúmplices na plateia.
Foi com saber, engenho e mestria que o homem dos sete ofícios (como se pode ler na sua biografia) compôs quadras que abordam temas tais como: a educação e a política.
António Vieira Nunes na apresentação do seu livro, guiou-nos numa digressão ao longo dos tempos com o intuito de exaltar o dialecto algarvio.
Bem haja António Vieira Nunes por ser um acérrimo defensor das “Algarviadas”, afinal de contas património oral de todos nós!... Algrave-se a Palavra


O maduro Maio já prenuncia as enchentes que cairão neste chão até à próxima poda.
Cruzamentos de vozes, que falam o mesmo mas de outra forma, sotaques a que o solo já se habituou, especialmente quando o sol se mostra, prolongado, desinibido.
Vieram à montanha, mas se Maomé é o profeta, ele que mostre os seus dons de poliglota e faça a visita guiada a Meca.
E assim se vai gesticulando, adaptando, aldrabando palavras que não são nossas, para que os que vêm de longe repousem de costas, sem grandes demoras.
Mas nem só de pronúncias de fora vive este sul, que o sol vai abençoando.
Há a nossa língua, que esses que vêm de fora sabem que existe, e há o “linguajar” desta terra comprometida com o mar. Há sons, expressões, há um dialecto de gerações e emoções, que aos poucos vai sofrendo a erosão das chegadas e partidas, perdido no babilónico cruzamento de vozes.
“Para perpetuar uma série de expressões algarvias”, António Vieira Nunes, filho da terra e do mar, faz do livro a arma da sua cruzada, em nome da memória do falar que conhece há setenta e dois anos.
Amadurecido, este homem deixa o legado impresso da palavra original, genuína, unificadora das suas vivências multifacetadas, gravando nas páginas as quadras que contam a história das gentes que aqui estão desde sempre, as Algarviadas encadernadas num incontornável azul.
Veio de Loulé ao espaço em constante escalada pelo futuro, mas erguido sobre a palavra, para ler, ele mesmo, as estrofes que não trabalhou para serem quadras, mas que afinal resultaram em quadras.
No dia 26 do Maio maduro, António Vieira Nunes sentou-se na nossa Biblioteca, antes mesmo da dita apresentação ao município, e durante uma hora leu quadras do livro e textos que ainda hão-de ser matéria-prima para outros, intercalando com explicações sobre o seu ofício de gravar o “linguajar” algarvio, com ou sem rima.
Leu e repetiu palavras, acentuando o sotaque popularmente correcto, a entoação sincopada, uma espécie de errata fonética – onde se pronuncia “porco”, deve pronunciar-se “pórque”, porque é nesta final transformação vocálica que reside grande parte do encanto da oralidade algarvia, inconfundível, mas já esbatida.
Entrelaçou a leitura com interpelações aos ouvidos atentos, de modo a descobrir se as expressões que ia resgatando do passado eram novidade ou velhas conhecidas. “Marafado”, “escarado” e tantas outras que surgem grafadas no livro tal como o algarvio ainda não seduzido pela língua padrão as diz. E não, não são gralhas, são os exotismos de um património rural que António Nunes quer que fique no ouvido, palavras que não quer mudas, apesar da inevitável mutação.
Os sorrisos escutavam aquela figura sentada, despretensiosa, simples, que lia e não se cansava, feliz por estar a partilhar a palavra que gosta e que lhe custa que se perca, e de quando em vez transformavam-se em risos, quando a semântica era mais atrevida, antecedida do aviso para a saudável malícia.
A par da toada humorística e da defesa da tradição oral da sua região, António Vieira Nunes também leu as suas preocupações com o estado da Nação, atento à educação, à política e principalmente à liberdade- ou ao mau uso dela.
Ficou ainda para autografar as Algarviadas dos curiosos que querem saber mais do sítio que escolheram, ou dos que não escolheram e aqui nasceram e querem alguém com quem conversar, no mesmo “linguajar”, deixando perceber uma vontade incessante de continuar a partilha.
Eu, que pertenço ao grupo dos que estão cá de passagem, fiquei atraída do princípio ao fim por este retorno às raízes do espaço que agora vejo descaracterizado no neologismo “Allgarve”. Não sou de cá, mas sinto. E prefiro o arcaísmo bonito à novidade metalizada.
(Também sei que já poderia escrever maio, mas enquanto me for concedido, abdicarei da minúscula, em nome de um bem maior. E talvez por isso me tenha lembrado do Zeca.)
“Quem te quebrou o encanto nunca te amou”.
Prof. Ana Rita

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